Fumaça do Bem

Quem é mais velho com certeza se lembra, ou melhor, não se esquece. Para quem é mais novo, trata-se de uma novidade e, atualmente, uma raridade. As locomotivas a vapor, apelidadas no Brasil de “Maria Fumaça”, compõem uma trajetória extremamente importante na história do país, tanto pelo transporte de passageiros e de carga, quanto para o desenvolvimento das cidades. As primeiras locomotivas surgiram em meados do século XIX, sendo que a pioneira foi construída por um engenheiro inglês chamado Richard Trevithick.

O brilho e a eminência deste transporte ainda encantam muitos olhares até hoje. Não é incomum observar a admiração das pessoas ao ouvirem o apito de um destes trens. Encantados, mesmo em um mundo que esbanja tecnologia de ponta, dedicam um pouco do seu tempo apenas para vê-los passar. Muitos, ainda fascinados pela beleza, curiosos pela sensação ou apaixonados por essa emoção, viajam pelo Brasil atrás de experiências sobre trilhos.

No país, a primeira locomotiva a vapor foi batizada, por Dom Pedro II, de Baroneza e se constituiu, inclusive, como monumento cultural, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN. A Estrada de Ferro Mauá, oficialmente denominada Imperial Companhia de Navegação a Vapor e Estrada de Ferro de Petrópolis, foi inaugurada no dia 30 de abril de 1854, ligando, inicialmente, o Porto de Mauá a Fragoso, no Rio de Janeiro. Esta foi a primeira ferrovia do país. A extensão até Raiz da Serra (Vila Inhomirim) se deu em 1856, onde se iniciaria a subida por cremalheira para Petrópolis e Areal, somente 30 anos mais tarde. Hoje,a Baroneza, primeira locomotiva a transportar a Comitiva Imperial, encontra-se no Museu Ferroviário do Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Seu valor histórico é ainda maior à medida que só existem dois exemplares deste modelo no mundo, um no Brasil e Inglaterra.

Tenho profundo encantamento e admiração pelos trens. Uma máquina capaz de transportar um grande volume de cargas, mas principalmente, passageiros, com conforto e segurança, sem trânsito, preservando o meio ambiente. Infelizmente, a malha ferroviária no Brasil foi toda destruída. Os poucos trens de passageiros em operação no Brasil, são reminiscências do passado. São ferrovias com apelo turístico, com destaque para o mais visitado, que é o Trem do Corcovado, no Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, também é possível fazer um passeio pelas cidades de São João Del-Rei-Tiradentes, e Ouro Preto – Mariana, por exemplo.

Outro bem conhecido é o Trem do Vinho, que fica na Serra Gaúcha, em Bento Gonçalves. São trens heróicos, que teimam em funcionar mantendo viva essa tradição. O apito da Maria Fumaça convida o turista a viajar no charme de um passeio que ainda guarda todo o seu charme histórico. E é por isso que luto, cada vez mais, por um Rio sobre Trilhos, mais funcional, que contribua, além da mobilidade na região metropolitana, para a qualidade de vida da população e a autoestima do carioca.

Por: Sávio Neves

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