Rio Surreal: um choque de realidade

16.04.2014

 

 

Diz-se do espírito carioca que se trata de uma maneira de ver, sentir e pensar que torna singulares os habitantes da Cidade Maravilhosa. De tão exaltado, às vezes não conseguimos observá-lo acuradamente, ou então ele passa despercebido por rotineiro. No entanto, há momentos em que fica explícito. Em época de protestos, nada mais essencialmente carioca do que usar o humor para expressar insatisfação. O movimento “Surreal”, criado para protestar contra os preços abusivos, é a prova mais recente do espírito carioca: cunhou um nome que é um achado – a associação do nome de nossa moeda com o movimento surrealista – para falar de um assunto sério.

 

O fenômeno inflacionário se explica por fatores estruturais e conjunturais, aos quais se somam componentes psicológicos que condicionam padrão de comportamento que alimenta a inflação. A recuperação econômica da Cidade do Rio de Janeiro no último lustro, depois de quase cinco décadas de estagnação, fê-la recuperar sua autoestima de capital simbólica do Brasil, mesmo depois da transferência da capital para Brasília, em 1960 – marco, segundo diversos estudiosos, dos sérios problemas que nós, cariocas de nascimento ou por adoção,  enfrentaríamos. A escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos de 2016 e como a principal sede da Copa do Mundo de 2014 coroou internacionalmente sua revitalização.

 

Sem que tivesse minada sua paisagem indevassável que junta morro e mar, o que já o valoriza naturalmente como atração turística, o Rio tornou-se a menina dos olhos do Brasil e do mundo. Daí que, sentindo a valorização neste novo momento de sua história de 449 anos, com aumento da demanda em diversas áreas, os preços se ajustem à lei da oferta e da procura.  Porém o desequilíbrio nessa relação tem sido tão intenso em algumas áreas que somente a teoria econômica não o explica; quando ela se esgota, outros referenciais devem ser buscados – como os componentes psicológicos.

 

O que leva um ambulante a majorar o preço de um prosaico misto-quente para absurdos R$40,entre outros surrealismos econômicos, senão o desejo do lucro fácil, o oportunismo econômico, a exploração do consumidor, a falta de cordialidade e de respeito ao próximo? Essa extorsão contra o cidadão se estende ao turista, e acaba por ameaçar nossa imagem de cidade cosmopolita, fazendo-o afastar-se da cidade e a procurar outros destinos. No fim desta triste história, não só este ambulante sairá perdendo com o descaso para com o consumidor, seja ele brasileiro, carioca ou estrangeiro – mas toda a indústria que depende da valorização do espírito carioca para manter-se sólida. Afinal, como todos sabemos, só a beleza não basta.

 

Por: Sávio Neves

 

Share on Facebook
Share on Twitter
Please reload

© Sávio Neves. Todos os direitos reservados.