Empresários planejam recuperar ferrovia do Império


Um grupo de empresários cariocas tem interesse em resgatar quatro ferrovias desativadas ou devolvidas por concessionárias de carga para criar novas rotas turísticas sobre trilhos no Estado do Rio de Janeiro. O projeto mais avançado prevê a revitalização da estrada de ferro Grão-Pará, da época do Império, entre o Rio e Petrópolis. A iniciativa é conduzida pela Câmara Empresarial do Rio, que reúne 80 empresários.

Nenhuma das propostas, no entanto, foi protocolada até agora na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). E existe ainda a dificuldade de os projetos dependerem de recursos públicos estimados em cerca de R$ 400 milhões justamente em um momento de crise fiscal do Rio e da União.

Responsável técnico pela proposta, o economista Antonio Pastori diz que o trecho que demanda mais investimento, de R$ 300 milhões, é o Rio-Petrópolis. O valor contempla a recolocação de 18 km de trilhos, o conserto dos existentes, além da compra de trens e remoção de 250 famílias que moram ao longo da estrada de ferro, hoje desativada. "As remoções são a principal dificuldade política e financeira. Fora isso, o leito pode ser facilmente revitalizado. As pontes de pedra do trajeto ainda estão lá, em perfeito estado", diz Pastori.

A Grão-Pará foi inaugurada em 1883 por Dom Pedro II e saiu de atividade em 1964. No período, funcionou como um intermodal, com integração entre um barco a vapor, que atravessava a Baía de Guanabara, e uma locomotiva cremalheira (sistema com trilho dentado para tração em grandes elevações). O percurso, feito com frequência pela família imperial, levava pouco mais de duas horas. Na nova linha, a cremalheira seria mantida, mas o trecho fluvial dispensado.

O passageiro tomaria um trem na Central do Brasil, no centro do Rio, operado pela concessionária de trens urbanos Supervia ou uma subconcessionária, e percorreria 35 km até o município de Duque de Caxias. No local, tomaria o chamado Trem Imperial, para fazer 21 km até Petrópolis. Tudo em uma hora e meia. O trajeto de carro ou ônibus em horários de pico leva duas horas. Cerca de 10 mil pessoas fazem o trajeto por rodovia em dias úteis, o que garantiria uma demanda à iniciativa privada.

A concessionária Trem do Corcovado, responsável pela linha férrea que leva turistas aos pés do Cristo Redentor, na Floresta da Tijuca, é a principal interessada no resgate da ferrovia. O presidente da operadora, Sávio Neves, disse que a empresa quer operar a nova linha, mas não está nos planos fazer o investimento no trajeto. O aporte, disse, teria de ser feito pela União, a concedente, em parceria com o governo do Estado e as prefeituras envolvidas. Como contrapartida de eventual concessão, a empresa poderia entrar com os trens, reduzindo o aporte público.

A Trem do Corcovado vai renovar este ano sua frota de seis trens elétricos da alemã Stadler Bussnang por R$ 100 milhões, valor 85% financiado pelo banco alemão LBBW. Por isso, poderia remanejar os carros antigos.

O segundo trecho que a Câmara Empresarial do Rio busca impulsionar é a linha do Trem da Mata Atlântica, que liga a Via Dutra (Rio-São Paulo) a Angra dos Reis, com ponto de partida em Rio Claro (RJ). O trecho recebeu transporte de passageiros até 1996 e de carga até 2010. Como os trilhos estão conservados, o investimento seria menor, de R$ 40 milhões. Outro trem listado é o "Macaquinho", que transportou passageiros pelo litoral de Mangaratiba, no litoral sul fluminense, até 1979. Como ainda há transporte de carga na linha, o investimento para inauguração da rota seria cerca de R$ 10 milhões. O quarto trecho em análise é em Miguel Pereira, norte do Estado, que usaria locomotivas ociosas da rede de hotéis do Serviço Social do Comércio (Sesc).

Neves disse que o retorno do investimento em ferrovias é relativamente baixo e demorado: situa-se em 5% e leva de 14 a 20 anos. No mercado imobiliário, compara, essa taxa pode chegar a 40%, em seis anos, em média. Por isso, tradicionalmente, a expansão da malha é por aporte público e licitação para a operação. Com a crise econômica dos últimos anos, mesmo projetos mais lucrativos, para transporte da carga, não têm avançado no Ministério dos Transportes.

Estados endividados, como o Rio, têm dificuldade ainda maior para investir em infraestrutura como trens urbanos. Como alternativas, Pastori cita parcerias público-privadas (PPP) e possíveis repasses de indenizações milionárias devidas à União por concessionárias que devolveram trechos considerados anti-econômicos. Entidades ferroviárias e o Ministério Público Federal de Minas Gerais pedem, na Justiça, o repasse proporcional dos valores aos Estados para projetos próprios.

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