O verão de 2020 caminha para entrar para a história da cidade como um momento de virada no turismo


O verão de 2020 caminha para entrar para a história da cidade como um momento de virada no turismo. Batemos recorde de visitantes no réveillon e caminhamos para alcançar outro patamar no carnaval. A rede hoteleira teve o seu melhor mês de janeiro dos últimos anos, com 82 de seus quartos reservados. As filas no Trem do Corcovado, no bondinho do Pão de Açúcar, no AquaRio e na Rio Star, a roda-gigante do Porto Maravilha indicam que, além da praia, os turistas têm muito a fazer na cidade, com chuva ou com sol.

Os números estão aí para confirmar o momento único que vivemos. Na primeira prévia da ocupação para o carnaval, a taxa média de ocupação dos hotéis alcançou 78,4% — em 2019, no mesmo período, este índice era de 74%. Com isso, é possível estimar que dois milhões de visitantes aproveitarão a folia no Rio. O valor médio das diárias está entre 6% e 8% maior e todos os quartos dos estabelecimentos cinco estrelas já estão fechados. Para se ter uma ideia, no ano passado, a festa de Momo movimentou R$ 3,78 bilhões na cidade.

Evidente que há problemas a resolver, como a crise no abastecimento de água, que, naturalmente, atrapalha os planos de quem planeja visitar o Rio. Sem falar na sempre citada questão da violência. A notícia de queda do número de homicídios é um alento, mas sabemos que se trata de um ponto sensível na vida da cidade.

Ao que tudo indica, as sementes plantadas no período da Copa do Mundo e das Olimpíadas enfrentaram os ventos e tempestades da instabilidade política e econômica e começam a florescer. O Rio conta hoje com uma rede hoteleira de primeiro mundo, com opções para todos os gostos e bolsos, espalhadas por toda a cidade. O transporte público, apesar de ainda estar longe de um modelo ideal das grandes metrópoles, já consegue atender a uma boa parcela dos turistas, com a combinação de metrô, BRT e VLT. A rede de serviços oferece boas opções de gastronomia, lazer e compras.

Mas é possível crescer e ter muitos outros verões, invernos, outonos e primaveras históricos. Pela minha experiência no Trem do Corcovado, acredito que podemos ampliar consideravelmente a oferta de atrações para os turistas, de modo a desbravarem outros roteiros na cidade. Começando por responder a uma pergunta que ouço todos os dias: o que fazer quando chove?

Pois então, o Rio vai muito além da praia. A arquitetura que atravessa diversos períodos da ocupação urbana, os museus e centros culturais, os bares e restaurantes tradicionais, os pólos de compras, enfim, é possível compor dezenas de roteiros longe do trinômio sol-mar-areia.

Precisamos pensar em atender determinados grupos, como os viajantes da melhor idade. Segundo um estudo do Ministério do Turismo, os brasileiros com mais de 60 anos fazem cerca de 18 milhões de viagens por ano, o que corresponde a 9% do mercado. O potencial do Rio para este segmento é imenso.

O turismo LGBTQI+ também desponta como uma ótima oportunidade de negócios, já que, de maneira global, representa uma injeção de quase R$ 900 bilhões na economia, com uma taxa de crescimento anual de 11%, contra 3,5% do setor no geral. O Brasil já é o segundo destino que mais atrai estes visitantes, perdendo apenas para os Estados Unidos.

Atrações para crianças, para viajantes com animais, para pessoas com mobilidade reduzida, enfim, buscar nichos e conquistá-los precisa estar no nosso radar. Acima de tudo, não podemos perder a simpatia e a alegria com que recebemos quem aqui chega. São marcas registradas que os turistas levam no coração. Não há propagandamelhor do que o boca-a-boca, as selfies e postagens em redes sociais dos visitantes que se apaixonaram pelo Rio de Janeiro.

Savio Neves para o Jornal O Globo

Fonte: https://oglobo.globo.com/opiniao/artigo-bons-ventos-para-turismo-24243114

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